| Fiscalização
de armas é falha, dizem especialistas
Jornal O Estado de S.
Paulo
02/09/2007
O estudo do Departamento
de Fiscalização de Produtos Controlados
do Exército só confirma um discurso
que sociólogos e especialistas em políticas
públicas já cansaram de repetir - falta
controle sobre compra e venda de armas no País.
"Já virou clichê de tanto que é
falado, mas é um profundo problema de gestão,
de falta de legislação eficaz",
diz o sociólogo Paulo Mesquita Neto, do Núcleo
de Estudos da Violência da USP. "Mesmo
que a arma seja vendida por um policial militar corrupto
ou roubada facilmente de um quartel, o resultado final
é o mesmo. Não há vigilância
sobre porte e uso de arma de fogo por parte do governo."
Segundo especialistas, há
várias maneiras de uma arma legal - comprada
em loja licenciada ou pertencente ao governo - ir
parar nas mãos de assassinos, assaltantes e
seqüestradores. A primeira passa pela corrupção
policial. "Agentes públicos têm
acesso fácil às armas e facilmente podem
tentar revendê-las", diz Cláudio
Chaves Beato Filho, coordenador-geral do Centro de
Estudos de Criminalidade e Segurança Pública
da Universidade Federal de Minas. "Principalmente
dentro da Polícia Militar, que possui o maior
contingente. É só vender uma arma ao
mercado paralelo e fazer B.O. de furto."
A pesquisa do Exército mostra,
porém, que grande parte das armas usadas por
bandidos (70,5%) veio do mercado civil. Esse arsenal
comprado legalmente em lojas e depois vendido ou dado
a um segundo proprietário entra no mercado
ilegal por falta de fiscalização. "Sem
falar nas armas legais que são furtadas por
criminosos e nunca mais aparecem", diz Jorge
Lordello, delegado licenciado e consultor de segurança.
O Exército rastreou 2.947
armas vendidas por fábricas a lojas brasileiras.
Há uma lista das lojas que mais compraram legalmente
armas depois desviadas ao crime. Das rastreadas, 129
foram vendidas à loja Rota do Sol, em São
Paulo, que não existe mais. Outras 101 para
Armas de Defesa, que também fechou. "Por
lei, as lojas só têm obrigação
de guardar notas das armas por cinco anos. Não
há como saber das vendas anteriores a esse
período. Se uma arma legal vai para o mercado
ilegal, a culpa é do Estado", diz o presidente
da Associação Nacional dos Proprietários
e Comerciantes de Armas, Antonio de Souza Couto Alves.
"O governo precisa controlar desde a fabricação
do revólver até o porte. Se algo dá
errado no meio do caminho, a culpa é dele,
não nossa."
Embora autorizações
para porte de arma sejam emitidas pela Polícia
Federal, o controle sobre produção e
comércio cabe ao Exército. "Por
uma questão tradicional, as armas são
jurisdição das Forças Armadas",
diz o pesquisador Gláucio Ary Dillon Soares.
"O controle deveria estar na PF, mais transparente
e competente." O Instituto Viva Rio defende o
"controle regular e periódico de lojas
e cidadãos" com armas legalmente registradas.
"Quem vende ilegalmente uma arma ou não
denuncia o furto ou roubo se converte em cúmplice
indireto do comércio ilegal", diz o relatório
encaminhado à Subcomissão de Armas da
Câmara.
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