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Paulistanos
procuram sprays, tacape e soco-inglês para autodefesa
G1 - Globo.com
Luciana Bonadio - 17/09/2007
Paulistanos
investem em métodos 'arriscados' para se sentirem
mais seguros.
O medo da violência
faz com que alguns paulistanos recorram a métodos
pouco tradicionais de autodefesa. Spray de pimenta,
soco-inglês e até tacapes ganham espaço
em bolsas, cintos ou no porta-malas de carros com
o objetivo de conseguir mais segurança. Especialistas
ouvidos pelo G1 alertam que o uso indevido destes
objetos pode trazer riscos e, em alguns casos, podem
ser considerados ilegais.
O tatuador Paulo, de 27 anos, usa
há quatro anos um soco inglês na fivela
do cinto. Ele garante que o objeto não é
usado para brigas, serve como uma forma de se prevenir.
“Se chegar um cara armado, não vai adiantar
usar. Mas, em uma confusão, pode se tornar
útil. Não tem porque arrumar briga com
um bandido usando um soco-inglês”, acredita.
A prevenção é
a principal dica do especialista em segurança
Jorge Lordello para evitar assaltos ou atos de violência.
“A grande arma que o ser humano tem para diminuir
riscos da criminalidade é a prevenção,
sem o uso de nenhum equipamento. (Estes instrumentos)
vão trazer mais problema do que solução”,
defende.
A primeira sugestão é
sempre estar atento ao que ocorre em volta. “O
importante é ter atitudes seguras para diminuir
os riscos. A pessoa precisa ser atenta ao que está
acontecendo em volta. Falar ao telefone em lugar de
grande movimento, por exemplo, é uma atitude
insegura”, afirma. Reagir, segundo Lordello,
nunca é solução. “Se a
fatalidade acontecer, não reaja.”
O psicólogo Antônio
de Pádua Serafim, do Instituto de Psiquiatria
da Universidade de São Paulo (USP), acredita
que, no caso específico do soco-inglês,
a pessoa não está preocupada com a segurança.
“Não é um artefato de segurança,
mas de agressividade. A pessoa pode sair (com este
tipo de instrumento) por dois motivos: ou se sente
ameaçado de alguma forma ou já tem uma
ação prévia de comportamentos
agressivos”, defende.
O capitão da Polícia
Militar Marcel Soffner diz que estes objetos não
podem ser utilizados para agressão, sob risco
de a pessoa responder criminalmente pelo ato. “Estes
não são instrumentos para uma ação,
mas sim para uma defesa. Mas em uma situação
que você está dominado, a regra é
nunca reagir”, afirma.
» Spray de pimenta
Usado pelas forças policiais
para repressão, o spray de pimenta é
um produto controlado pelo Exército, cujo porte
é proibido em território nacional. Policiais
e guardas-civis têm autorização
para utilizar o produto. Na classificação
do Serviço de Fiscalização de
Produtos Controlados, o spray aparece como categoria
1, que tem utilização, tráfego
e comércio proibidos. Do mesmo grupo fazem
parte a granada, os mísseis e as minas explosivas.
O spray é feito a partir da
substância da pimenta que provoca a ardência.
De acordo com o especialista em armas não-letais
Antônio Carlos Magalhães, que trabalha
na empresa que produz o gás de pimenta usado
pelas polícias de todo o país, o spray
provoca uma sensação de queimação,
fechamento involuntário dos olhos e dificuldade
de respirar que pode durar até 40 minutos.
A empresa já vendeu mais de
500 mil unidades desde 2001. “Não houve
neste espaço de tempo nenhum registro de lesão
ou mal à saúde”, diz. Ele defende
a liberação do produto para a população
civil. “Se a pessoa é idônea, pode
adquirir uma arma de fogo, mas não pode comprar
um spray de pimenta”, critica.
Apesar da proibição,
muitas pessoas conseguem acesso ao produto, vendido
em domínios brasileiros na internet e em lojas
de outros países. Um tio do estudante Ricardo,
de 23 anos, trouxe o spray de pimenta de uma viagem
aos Estados Unidos. O jovem já o levou no bolso
para sua segurança em duas ocasiões,
mas nunca precisou espirrar a substância nos
olhos de ninguém.
“Eu usei uma vez em um show
na USP porque era de graça e achei que estaria
meio pesado. Na outra vez, eu levei à Virada
Cultural, no show dos Racionais”, contou. O
grupo de rap se apresentou na Praça da Sé
no dia 6 de maio e o espetáculo acabou em quebra-quebra.
Mesmo com a confusão, Ricardo não usou
o spray. “Eu comecei a ver gente saindo, sendo
assaltado, e fui embora.”
Outro produto que conta na lista
dos controlados é a arma de choque. Esta semana,
o suposto porte de uma delas por um segurança
do Congresso durante uma briga antes da sessão
que absolveu o senador Renan Calheiros (PMDB-AL) provocou
polêmica. O deputado Raul Jungmann (PPS-PE)
ficou revoltado com o fato. “Isso não
é equipamento, não é procedimento
pra se usar contra representantes do povo brasileiro”,
disse na ocasião.
» Tacape no porta-malas
O engenheiro Fábio, de 30
anos, anda com um tacape no porta-malas do carro há
três anos. Ele comprou a arma indígena
em uma viagem a Mato Grosso e, em vez de utilizar
o tacape como enfeite, decidiu usá-lo para
proteção. “Eu ando com ele no
porta-malas para o caso de acontecer alguma coisa,
como o pneu furar em algum lugar perigoso”,
conta.
Apesar de admitir que usaria o instrumento
em caso de assaltos, ele diz que o tacape não
traz tranquilidade. “Enquanto eu estou dirigindo,
ele não está ao meu alcance. Eu não
acho que é garantia de segurança, tem
milhões de outras coisas que vão garantir
minha segurança mais do que isso. Tem ações
preventivas que são muito melhores do que qualquer
ação individual.”
O psicólogo Antônio
de Pádua Serafim acredita que muitas pessoas
portam estes instrumentos porque se sentem mais seguras.
O especialista acrescenta, no entanto, que eles podem
acabar utilizados em situações desnecessárias.
“Não dá para prever com clareza
como você vai reagir frente a uma ameaça,
depende muito da reposta emocional neste momento.
De repente, a pessoa pode agir em uma situação
que não seria necessária.”
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