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Mulheres
em perigo
Jornal
da Tarde
26/08/2007
A vida da arquiteta Jamile
de Castro Nascimento foi interrompida aos 24 anos
de forma brutal quando fazia uma vistoria para avaliar
um apartamento. A jovem foi assassinada friamente.
O porteiro do prédio confessou o crime semanas
depois. O caso soou como alerta para os riscos que
as mulheres correm no trabalho, principalmente as
profissionais liberais, como dentistas, corretoras
e psicólogas.
O especialista em segurança
e delegado licenciado Jorge Lordello disse que a sua
caixa postal ficou lotada de mensagens depois que
o caso Jamile foi divulgado na imprensa. "Recebi
e-mails de vários cantos do Brasil de mulheres
profissionais liberais. Uma delas contou que trabalha
como corretora, foi assediada e, ao relatar a história
para o chefe, acabou impedida de registrar queixa
para não constranger o cliente e não
envolver o nome da imobiliária com a polícia",
afirmou Lordello.
De acordo com o especialista,
as profissionais liberais estão mais expostas
aos criminosos, pois têm de encarar sozinhas
situações de trabalho, como ocorreu
com Jamile. Ou ainda por trabalharem em escritório
ou consultório - que nem sempre contam com
recepcionistas ou sistema de câmeras de vigilância.
"Num caso semelhante ao de Jamile, a profissional
ao chegar no prédio pode ligar para o chefe
na frente do porteiro e dizer: "Olha, acabei
de chegar ao prédio e volto em 10 ou 15 minutos.
Inclusive, fui atendida pelo porteiro ou zelador,
o fulano de tal", alerta Lordello. Dessa forma,
a mulher inibe a ação do funcionário
mal-intencionado.
» Só com hora marcada
O presidente do Sindicato dos Odontologistas
do Estado de São Paulo, Pedro Petrere, tem
alertado, há cerca de um mês, os jovens
dentistas a não receber o chamado "atendimento
de porta". "Aqui no sindicato pedimos para
que os atendimentos sejam com hora marcada, com indicação
e mesmo assim é preciso pedir todas as referências
possíveis", diz.
A dirigente do Setor Técnico
de Apoio às Delegacias da Mulher do Estado
de São Paulo, Márcia Salgado, diz acreditar
que o criminoso prefere surpreender uma mulher porque
a chance de uma reação por parte da
vítima é menor.
Por esse motivo, o crime pode envolver outros delitos.
O que era para ser um assalto, já que a vítima
está dominada, pode virar abuso sexual, pois
o criminoso se aproveita da situação.
"Em alguns casos o bandido rouba, violenta e,
para acobertar o caso, acaba matando a vítima",
disse Márcia.
"Não disponho de dados
estatísticos, mas o número de casos
de roubo seguido de crime sexual é maior do
que o de casos em que ocorrem apenas a violência
sexual", completou a dirigente - que tem 20 anos
de experiência na Delegacia da Mulher.
De acordo com Alexandre Tirelli,
presidente do Sindicato dos Corretores de Imóveis
do Estado de São Paulo, as corretoras de imóveis
são alvo muito fácil de pessoas com
más intenções. "De cada
dez profissionais da área, pelo menos seis
já sofreram assédio. Para nós,
isso é muito triste porque a presença
das mulheres tem crescido e as queixas sobre isso,
também. Hoje, 40% de quem atua no meio imobiliário
é mulher."
Tirelli lembra que os problemas
principais vão desde só fechar negócio
se a corretora sair com o comprador até homens
grosseiros durante visitas em imóveis. "Na
maioria dos casos, não se registra boletim
de ocorrência. Tudo é resolvido no diálogo",
conta.
» Retranca
Quando soube da morte da arquiteta Jamile, a questão
da segurança, que já era uma antiga
preocupação, tornou-se prioridade no
dia-a-dia da psicóloga Carolina Massabki Costa
Pinto. A profissional trabalha sozinha. "A gente
nunca sabe quem está do outro lado da linha
(do telefone). Por isso, tomo bastante cuidado antes
de agendar um paciente", afirma.
Para se prevenir, ela não
atende após as 18h. Como não tem secretária,
tranca seu consultório e, no caso de uma consulta
um pouco além do horário, avisa os advogados
de um escritório ao lado."Também
ligo para os meus pais e aviso que estou em consulta.
Se demorar, eles ligam." A psicóloga diz
que algumas colegas têm até um botão
de pânico (linha direta com a polícia)
no consultório. "Eu não descarto
a hipótese de instalar um desses."
A corretora de imóveis autônoma
Penha Aparecida Farias tem um clientela definida e
aposta nos funcionários do prédio em
que faz visitas. "O fato de eu conhecer síndicos
e zeladores me deixa mais tranqüila, mas é
claro que sinto medo em algumas situações."
Vendedora autônoma, M., 31
anos, viveu momentos de pânico com um funcionário
de uma loja que atendia. Ao entregar um produto, o
rapaz tentou agarrá-la. "Ele me jogou
atrás da máquina de xerox. Eu consegui
me soltar e fugir, mas deixei minha bolsa para trás
." No dia seguinte, M. foi falar com o dono da
loja, mas soube que era o último dia de trabalho
do rapaz, que desapareceu.
A psicóloga A . só atende se for indicação
de um colega. Seu consultório não tem
placas. "Uma vez, um paciente de 45 anos começou
a perguntar da minha vida, olhar estranho, queria
saber se eu era casada, tinha filhos. Interrompi o
tratamento dele na mesma hora."
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